terça-feira, 19 de julho de 2011

Ludwig Feuerbach e a essência do Cristianismo.

A religião tornou-se um tabu nas organizações. Não a discutimos por respeito sagrado às pessoas e por respeito ao sagrado. Porém, por medo de discuti-la, aceitamos muitas excessos e irracionalidades. O filósofo alemão, Ludwig Feuerbach, já em 1841, ousou por um pouco de racionalidade na discussão sobre a religião e deu muito o que falar, até hoje.

A RELIGIÃO SOB UM OUTRO OLHAR:

Comentário sobre o livro "A Essência do Cristianismo” de Ludwig Feuerbach.
“O solene desvelar dos tesouros ocultos do homem, a revelação de seus pensamentos íntimos, , a confissão pública de seus segredos de amor.”
“Como forem os pensamentos e a disposições do homem, assim será o seu Deus; quanto valor tiver um homem, exatamente isto e não mais, será o valor de seu Deus. Consciência de Deus é autoconsciência, conhecimento de Deus é autoconhecimento”.
“Deus é a mais alta subjetividade do homem, abstraída de si mesmo.”
“Este é o mistério da religião: o homem projeta o seu ser na objetividade e então se transforma a si mesmo num objeto face a esta imagem de si mesmo, assim convertida em sujeito.”
(Trechos de “A Essência do Cristianismo” de L. Feuerbach)

1. Introdução
Este artigo tenta expor as principais idéias do filósofo alemão Ludwig Feuerbach a respeito da religião. A religião, especialmente o cristianismo, foi o centro da atividade intelectual e da “perdição” do ousado filósofo que rompeu com o pensamento de seu mestre Hegel e transformou a religião num fenômeno antropológico, expressão da natureza humana.
Considera a religião a essência imediata do ser humano, acreditando assim poder explicitar os "tesouros escondidos no homem". Reduz atributos divinos da teologia a atributos humanos da antropologia. Sua filosofia procura transformar a teologia de Hegel em uma antropologia baseada no mesmo princípio, a unidade do limite e do infinito. Compondo a esquerda hegeliana, Feuerbach defende a idéia de que para Hegel a religião não é razão, e sim representação, sendo então redutível ao mito. Esta facção, em um primeiro momento, faz uso das idéias hegelianas dirigindo-as contra a teologia e a filosofia tradicional. Em uma segunda etapa, acaba por criticar as abstrações hegelianas em defesa do homem concreto, e a fé cristã em defesa de uma metafísica imanentista. Distancia-se de Hegel, entre outras coisas, ao eleger o homem concreto como sua prioridade e não a idéia de humanidade.

2. A Essência do Cristianismo
Em sua obra-prima, “A Essência do Cristianismo” , Feuerbach aborda o fenômeno religioso a partir do próprio homem.
“O homem se distingue do animal pela consciência.” Em outra passagem afirma: “Consciência é a característica de um ser perfeito”. O homem tem consciência de si através do objeto. Ou seja, o outro: o eu e o tu, na visão positivista.
A trindade humana - amor, razão e vontade - é a essência do próprio homem, é o homem completo:
- a força do pensamento é a luz do conhecimento, a razão;
- a força da vontade é a energia do caráter;
- a força do coração é o amor.
Querer, sentir e pensar são perfeições, essências, realidades... são infinitos, ilimitados. É ser consciente de si mesmo. É impossível, afirma Feuerbach nos remetendo à Descartes quando fala que Deus só pode ser um ser perfeitíssimo, ser consciente de uma perfeição como imperfeição; impossível sentir o sentimento como limitado, impossível pensar o pensamento como limitado.
Assim, o Ser Absoluto, o Deus do homem, é a sua própria essência. Feuerbach, já no início de sua obra, antropologiza a Trindade cristã em amor, razão e vontade, e que nada mais é do que a nossa própria essência. E a consciência disso é o que nos distingue dos animais. Amor, razão e vontade, essências do ser humano, são realidades ilimitadas, infinitas assim como Deus o é.
A antropologização segue seu curso em Feuerbach. O querer (a vontade) torna o homem infinito. O mesmo acontece com o sentir e o pensar que tornam o homem infinito e ilimitado, que são nossas construções de Deus. A consciência disso é autoconfirmação, auto-afirmação, que somos seres ilimitados e que projetamos tudo isso em Deus. Nossa educação cristã não permite que tomemos para nós adjetivos de tamanha grandeza. Não nos permite que possamos “conhecer mais que Deus” ou “se igualar a Deus”. Feuerbach, tornou-se maldito por ter ousado dizer que o temos de melhor, de mais sublime, enfim nossa essência, dizemos que é Deus. Ou seja, projetamos nossa essência em Deus e nos esquecemos que isto somos nós mesmos, nos anulando. Por outro lado, ele também afirma que isto é positivo, pois faz nos lembrar e ter consciência do melhor de nós mesmos.
Feuerbach continua na linha cartesiana: “o divino só pode ser conhecido pelo divino”. Isto quer dizer: se não tivéssemos o divino em nós, não poderíamos falar, exprimir ou experimentar o divino. E o divino não é razão, é sentimento: “a essência divina que o sentimento percebe é em verdade apenas a essência do sentimento arrebatada e encantada consigo mesma – o sentimento embriagado de amor e felicidade”. O autor constata que fez-se do sentimento a parte principal da religião, bem como a essência objetiva dela. “O sentimento é transformado num órgão do infinito, da essência subjetiva da religião, o objeto da mesma perde seu valor objetivo”. E no objeto religioso a consciência coincide com a consciência de si mesmo, o seu íntimo. Já num objeto sensorial, a consciência está fora, e no religioso, o objeto está dentro do próprio homem, sendo sua essência. Assim, amparado em Agostinho que diz que “Deus é mais próximo, mais íntimo e por isso, mais facilmente reconhecível que as coisas sensoriais e corporais”, Feuerbach resume sua visão antropológica da religião:
“A consciência de Deus é a consciência que o homem tem de si mesmo; o conhecimento de Deus é o conhecimento que o homem tem de si mesmo. Pelo Deus conheces o homem e vice-versa pelo homem conheces o seu Deus; ambos são a mesma coisa. [...] A religião é uma revelação solene das preciosidades ocultas do homem, a confissão dos seus mais íntimos pensamentos...”
Nesse sentido, a religião tornou-se, para Feuerbach, uma idolatria, pois o homem adora a sua própria essência: “os predicados divinos são qualidades da essência humana” e “na religião, o homem ao relacionar-se com Deus, relaciona-se com a sua própria essência”.
Feuerbach percebe a necessidade existente no homem da religião – “o sentimento religioso é o mais alto sentimento de conveniência” - uma vez que ela lhe serve como alívio frente às angústias, à dor e ao sofrimento da existência, que a natureza somente provoca e não alivia. O homem é dependente da natureza para existir. A natureza é sentida como necessidade, e é ai que surge a religião, opondo-se entre o querer e o poder, pensamento e o ser. Diante da natureza, o homem sente-se limitado, finito, já a religião teria a possibilidade da onipotência e da infinitude de Deus para oferecer ao homem. Os desejos do homem estariam assim representados enquanto possibilidade na figura de Deus, que é a representação imaginária da realização de todos os desejos humanos, superando os limites que a natureza lhe impõe. Deus domina a natureza, pois para o homem, ele é quem a cria. Assim sendo, Feuerbach desloca a divindade de um Deus externo ao homem para o interior do próprio homem. Ele é o Deus dele mesmo, e diz: "O Ser Absoluto, o Deus do homem é o próprio ser do homem." Deus é então a consciência que o homem tem de sí mesmo, de seu ser. A exemplo disto, a perfeição divina nada mais é do que o desejo do homem de ser perfeito e a consciência que tem de si, enquanto um ser imperfeito. O amor, a crença, o desejo, etc., atribuídos a Deus, que segundo Feuerbach, deveriam voltar-se para o próprio homem e para seu igual. Acredita que o homem deveria acreditar nele mesmo. No entanto, este filósofo aponta um erro na religião, que é a ilusão que ela cria. Ao mesmo tempo que oferece um sentido de vida para o homem e uma forma de ele lidar com suas limitações, a religião acaba por distânciá-lo dele mesmo, exteriorizando a própria divindade.

3. Conclusão
Como vimos, para Feuerbach, o homem é quem cria Deus e não o contrário. Segundo o autor, a filosofia precisa dar conta deste homem como um todo, e não somente da razão que o compõe. Deve abraçar a religião, enquanto fato humano, considerando este homem em comunhão com outros homens, caminho este através do qual ele pode sentir-se livre e infinito. O autor acredita que somente a religião dá conta do homem em sua totalidade. Feuerbach sugere que a religião desempenha um importante papel na vida do homem concreto. Para ele, a consciência que o homem tem de Deus é a consciência que o homem tem de si. Acredita que para se conhecer um homem, basta conhecer seu Deus, já que na sua concepção, a religião, o Deus do homem, nada mais é do que a projeção da intimidade da essência do homem. Assim sendo, para Feuerbach o método da teologia é a antropologia, pois o homem deposita em seu Deus a sua essência.
Em sua radicalidade, torna-se patente em Feuerbach que a religião e mesmo o estado são institutos irracionais a serviço da racionalidade, pois revestem-se de um caráter racional para induzir “vulgo” à submissão.



ARTIGO RETIRADO NA ÍNTEGRA DO SITE:
AUTOR: JOSÉ RICARDO MARTINS.


Ludwig Feuerbach é um dos meus filósofos favoritos, pois em pleno século IX - ao qual o cristianismo ainda exercia grande influência em todos os seguimentos da vida pública e particular - ele ousou expor uma teoria revolucionária que questiona o lado místico e sobrenatural da religião, nos mostrando que Deus nada mais é que uma representação aperfeiçoada de nós seres humanos.


RH.



4 comentários:

Revelação Final disse...

Radige
O fato do que o Lula falou ou disse sobre a não existência do Reino de Deus, paraíso, pouco exporta para um cristão que tem a sua fé conecta em Deus, em apenas Deus, e o verdadeiro e sábio cristão, não se deixa influenciar por falsos cristãos e muito menos pela opinião de terceiros como o Lula.
O Reino e a vida eterna existem, estão escritos na palavra de Deus,você tem que ter fé se deseja acreditar nesta verdade, ele nos conforta muito bem, diferente de muitas gente que prefere obter outro tipo de conforto na prostituição, drogas e nas baladas, está é a nossa crença, a opinião do Lula a sua não terá impacto algum sobre a nossa crença.

Revelação Final disse...

Radige

Bem o fato de uma pessoa crê em Deus na sua totalidade e se entrega a ele de corpo e alma, tem poucas chances de cair num universo sem Deus, e penetrar direto nas drogas e na criminalidade fora a prostituição e a promiscuidade iminente nesta sociedade sem Deus e caótica.

A teoria sobre o evolucionismo é piada de mau gosto, é nem um acéfalo, com todo respeito, iria acreditar nesta mentirá esdrúxula.
Está falsa teoria foi criada para refutar o criacionismo, para levar o homem a negar a existência Deus, e vejo que já conseguiram êxito. Ciência e religião andam juntas, no entanto aquilo que a ciência não consegue explicar, a religião elucida facilmente ”Homem criação de Deus”. Fato!

Não vou me se aprofundar nesta questão, mas as pessoas querem viver conforme as suas rédeas, viram as contas para DEUS, cospem em seu rosto, negam o seu nome, preferem mais viver a sua vida de uma forma equivocada do que correta, ainda Deus é o culpado do contexto e o caos que se instaura na terra e na vida das pessoas?,Por favor, me poupe!

DEUS É AMOR, MAS TAMBÉM JUSTIÇA, Deus não é um palhaço para tolerar determinadas posturas dos homens, sendo que é dado a oportunidade para o arrependimento, apara iniciar uma nova vida.



Viver sem Deus e negá-lo é um direito de todo o homem, contudo, a oportunidade e nos dado agora em vida, e num futuro bem próximo quando o tal Deus que você e a maioria não acreditam de fato se mostrar como criador será tarde demais.

Minha intenção não é ofender, mas não crer em Deus é extremamente irracional!

Radige Hanna disse...

Eu respeito a crença das outras pessoas, que mesmo estando erradas, tem direito de acreditar no que quiser. Mas a falta de crença não significa que você será uma prostituta, drogada ou criminoso.

Eu não preciso de Deus para me sentir reconfortada, muito pelo contrário, quanto mais eu penso em Deus mais indignada fico. Um ser onipotente e onipresente é extremamente egoísta e irracional pois pela Bíblia nós surgimos da criação de Deus - o que já está cientificamente provado ser impossível - mas se for assim como este Deus cruel nos cria como seus bonequinhos e depois simplesmente nos abandona em uma mundo cruel onde a felicidade se encontra em coisas materiais enquanto milhares de pessoas morrem a nossa volta... se Deus existe mesmo eu não sinto a menor admiração por ele, pois ele é incrívelmente perverso por ficar no suposto reino dos céus enquanto nós, sofremos em uma mundo supostamente criado por ele.

Quanto bondade da parte de Deus, nos criar para depois se divertir com as desgraças de sua criação, nossa, quanta bondade da parte dele.

Minha intenção não é ofender, mas a crença em Deus é extremamente irracional.

Tiago Rodrigues Carvalho disse...

Me lembrei de uma frase do Ivan Karamazov (personagem de "Os Irmãos Karamazov") onde ele diz que o homem criou Deus e o demônio; no caso do demônio ele teria sido criado com base em nossa imagem e semelhança. Ainda em outro trecho da obra Ivan afirma que o Homem havia criado Deus, na figura masculina porque sabia que a humanidade seria infinitamente mais carente de Pai do que de Mãe.

Nas obras de Epicuro também são visíveis os questionamentos acerca da divindade. Seus argumentos foram defendidos por Voltaire na obra "O dicionario filosofico". Epicuro questiona a existencia de Deus aatravez de um silogismo, muito usado no raciocinio logico da Matematica:

"Deus, ou quer impedir os males e não pode, ou pode e não quer, ou não quer nem pode, ou quer e pode.
Se quer e não pode, é impotente: o que é impossível em Deus.
Se pode e não quer, é invejoso: o que, do mesmo modo, é contrário a Deus.
Se nem quer nem pode, é invejoso e impotente: portanto nem sequer é Deus.
Se pode e quer, que é a única coisa compatível com Deus, donde provém então existência dos males?
Por que razão é que não os impede?"

Nietzche na obra "O anticristo" ataca mais o Cristianismo em si do que a existência de Deus. Gosto muito da obra "Ensaios Ceticos" de Bertrand Russel. Já li umas três vezes. "Ao homem sábio só lhe cabe acreditar naquilo que a logica lhe aponte como crível."