quarta-feira, 27 de julho de 2011

Conquistar a própria origem


"O espírito em nós não pode se vangloriar de sua autonomia sem conquistá-la. A recusa que ele opõe a toda intrusão, a toda coação, a toda lavagem cerebral supõe que ele consiga emergir do mundo das coisas de que se pode dispor sem declarar, que ele não possa, portanto, ser manipulado como elas, porque ele tem de ser a origem das opções sobre as quais se detém. [...] Inúmeros contemporâneos nossos admitem e reivindicam (em princípio) a inviolabilidade da pessoa, sem ver que ela tem como fundamento uma dignidade que tem de conquistar, e que, se for preciso garantir a cada um o poder de ser a origem de uma vida propriamente pessoal, isso implica, de sua parte, que ele consinta em uma transformação radical de si mesmo, que ele construa esse espaço interior que justifique o respeito, que ele se torne, em sua mais secreta intimidade, um bem universal que o mundo inteiro possa reconhecer como seu. [...] Enfim, é exatamente essa criação secreta, pela qual cada um é capaz de se tornar um ser humano, que os 'direitos humanos' querem proteger. Pois é na medida em que cada um se torna um ser humano que se constitui a humanidade."


Maurice Zundel, Quel homme et quel Dieu?,
Saint-Augustin, 2002, p. 180-181.

Retirado do livro "A força da convicção - Jean-Claude Guillebaud."


A meu entendimento, o autor quis dizer neste texto que para o conjunto de Homo sapiens ser considerado uma 'humanidade', no termo que se emprega habitualmente, é necessário um esforço de cada indivíduo para transformar a própria natureza em algo melhor e que interaja com os outros gerando um convívio positivo e para que isto aconteça é preciso nos empenharmos

- e em uma expressão mais adequada, "fazer por merecer" - alcançando assim uma classificação não como 'raça humana'

(que vem de uma origem animal) e sim como 'seres humanos' (conceito que transmite uma ideia de estes seres maravilhosos exercerem a bondade, o respeito e cooperação uns com os outros).

E um segundo conceito um tanto quanto diferente do de cima mas que parece ser o principal do texto é que se faz vital no nosso convívio com a sociedade ter uma espécie de filtro (ou como diz popularmente, uma peneira) em nossos instintos para que não sejamos manipulados e que assim seja preservada nossa dignidade e autonomia.

Mas gostei mais da minha primeira conclusão.


RH.

segunda-feira, 25 de julho de 2011

Escapar da miséria psíquica.


Estou terminando de ler um livro que de início não gostei, mas à medida que fui lendo e entendendo-o melhor passei a gostar mais e mais.
Ele me fez pensar até que ponto a crença não está enraizada em cada um de nós e não só de forma religiosa como também nas ciências, na tecnologia e até na economia.
O legal, e que eu sempre faço, é grifar os trechos que foram, para mim, os melhores e mais interessantes e depois divulgá-los por aí.


Este texto aqui em baixo é bem esclarecedor para aquelas pessoas que ainda não perceberam que uma mudança se faz necessária e que para havê-la é necessário uma força motora que engatará a primeira marcha!

"O que se requer é uma nova criação imaginária, de uma importância sem precedentes no passado, uma criação que ponha no centro da vida humana outras significações, e não apenas a expansão da produção e do consumo, que proponha objetivos de vida diferentes, e que possam ser reconhecidos pelos seres humanos como valendo a pena. [...] É essa enorme dificuldade que temos de enfrentar. Deveríamos querer uma sociedade na qual os valores econômicos deixassem de ser centrais, ou únicos, em que a economia fosse recolocada em seu lugar, como simples meio de vida humana e não como seu fim último, uma sociedade na qual se renunciasse a essa corrida alucinada em direção a um consumo cada vez maior. Isso é necessário não só para evitar a destruição definitiva do meio ambiente terrestre, mas também, e sobretudo, para escapar da miséria psíquica e moral dos homens e mulheres contemporâneos."


Cornelius Castoriadis, La Montée de l'insignifiance, 
Seuil, 1996, p. 96.
Edição brasileira: A ascensão da insignificância. 
São Paulo: Paz e Terra, 2002.


Livro ao qual fiz referência: 
A força da convicção - Jean-Claude Guillebaud.


RH.

terça-feira, 19 de julho de 2011

Ludwig Feuerbach e a essência do Cristianismo.

A religião tornou-se um tabu nas organizações. Não a discutimos por respeito sagrado às pessoas e por respeito ao sagrado. Porém, por medo de discuti-la, aceitamos muitas excessos e irracionalidades. O filósofo alemão, Ludwig Feuerbach, já em 1841, ousou por um pouco de racionalidade na discussão sobre a religião e deu muito o que falar, até hoje.

A RELIGIÃO SOB UM OUTRO OLHAR:

Comentário sobre o livro "A Essência do Cristianismo” de Ludwig Feuerbach.
“O solene desvelar dos tesouros ocultos do homem, a revelação de seus pensamentos íntimos, , a confissão pública de seus segredos de amor.”
“Como forem os pensamentos e a disposições do homem, assim será o seu Deus; quanto valor tiver um homem, exatamente isto e não mais, será o valor de seu Deus. Consciência de Deus é autoconsciência, conhecimento de Deus é autoconhecimento”.
“Deus é a mais alta subjetividade do homem, abstraída de si mesmo.”
“Este é o mistério da religião: o homem projeta o seu ser na objetividade e então se transforma a si mesmo num objeto face a esta imagem de si mesmo, assim convertida em sujeito.”
(Trechos de “A Essência do Cristianismo” de L. Feuerbach)

1. Introdução
Este artigo tenta expor as principais idéias do filósofo alemão Ludwig Feuerbach a respeito da religião. A religião, especialmente o cristianismo, foi o centro da atividade intelectual e da “perdição” do ousado filósofo que rompeu com o pensamento de seu mestre Hegel e transformou a religião num fenômeno antropológico, expressão da natureza humana.
Considera a religião a essência imediata do ser humano, acreditando assim poder explicitar os "tesouros escondidos no homem". Reduz atributos divinos da teologia a atributos humanos da antropologia. Sua filosofia procura transformar a teologia de Hegel em uma antropologia baseada no mesmo princípio, a unidade do limite e do infinito. Compondo a esquerda hegeliana, Feuerbach defende a idéia de que para Hegel a religião não é razão, e sim representação, sendo então redutível ao mito. Esta facção, em um primeiro momento, faz uso das idéias hegelianas dirigindo-as contra a teologia e a filosofia tradicional. Em uma segunda etapa, acaba por criticar as abstrações hegelianas em defesa do homem concreto, e a fé cristã em defesa de uma metafísica imanentista. Distancia-se de Hegel, entre outras coisas, ao eleger o homem concreto como sua prioridade e não a idéia de humanidade.

2. A Essência do Cristianismo
Em sua obra-prima, “A Essência do Cristianismo” , Feuerbach aborda o fenômeno religioso a partir do próprio homem.
“O homem se distingue do animal pela consciência.” Em outra passagem afirma: “Consciência é a característica de um ser perfeito”. O homem tem consciência de si através do objeto. Ou seja, o outro: o eu e o tu, na visão positivista.
A trindade humana - amor, razão e vontade - é a essência do próprio homem, é o homem completo:
- a força do pensamento é a luz do conhecimento, a razão;
- a força da vontade é a energia do caráter;
- a força do coração é o amor.
Querer, sentir e pensar são perfeições, essências, realidades... são infinitos, ilimitados. É ser consciente de si mesmo. É impossível, afirma Feuerbach nos remetendo à Descartes quando fala que Deus só pode ser um ser perfeitíssimo, ser consciente de uma perfeição como imperfeição; impossível sentir o sentimento como limitado, impossível pensar o pensamento como limitado.
Assim, o Ser Absoluto, o Deus do homem, é a sua própria essência. Feuerbach, já no início de sua obra, antropologiza a Trindade cristã em amor, razão e vontade, e que nada mais é do que a nossa própria essência. E a consciência disso é o que nos distingue dos animais. Amor, razão e vontade, essências do ser humano, são realidades ilimitadas, infinitas assim como Deus o é.
A antropologização segue seu curso em Feuerbach. O querer (a vontade) torna o homem infinito. O mesmo acontece com o sentir e o pensar que tornam o homem infinito e ilimitado, que são nossas construções de Deus. A consciência disso é autoconfirmação, auto-afirmação, que somos seres ilimitados e que projetamos tudo isso em Deus. Nossa educação cristã não permite que tomemos para nós adjetivos de tamanha grandeza. Não nos permite que possamos “conhecer mais que Deus” ou “se igualar a Deus”. Feuerbach, tornou-se maldito por ter ousado dizer que o temos de melhor, de mais sublime, enfim nossa essência, dizemos que é Deus. Ou seja, projetamos nossa essência em Deus e nos esquecemos que isto somos nós mesmos, nos anulando. Por outro lado, ele também afirma que isto é positivo, pois faz nos lembrar e ter consciência do melhor de nós mesmos.
Feuerbach continua na linha cartesiana: “o divino só pode ser conhecido pelo divino”. Isto quer dizer: se não tivéssemos o divino em nós, não poderíamos falar, exprimir ou experimentar o divino. E o divino não é razão, é sentimento: “a essência divina que o sentimento percebe é em verdade apenas a essência do sentimento arrebatada e encantada consigo mesma – o sentimento embriagado de amor e felicidade”. O autor constata que fez-se do sentimento a parte principal da religião, bem como a essência objetiva dela. “O sentimento é transformado num órgão do infinito, da essência subjetiva da religião, o objeto da mesma perde seu valor objetivo”. E no objeto religioso a consciência coincide com a consciência de si mesmo, o seu íntimo. Já num objeto sensorial, a consciência está fora, e no religioso, o objeto está dentro do próprio homem, sendo sua essência. Assim, amparado em Agostinho que diz que “Deus é mais próximo, mais íntimo e por isso, mais facilmente reconhecível que as coisas sensoriais e corporais”, Feuerbach resume sua visão antropológica da religião:
“A consciência de Deus é a consciência que o homem tem de si mesmo; o conhecimento de Deus é o conhecimento que o homem tem de si mesmo. Pelo Deus conheces o homem e vice-versa pelo homem conheces o seu Deus; ambos são a mesma coisa. [...] A religião é uma revelação solene das preciosidades ocultas do homem, a confissão dos seus mais íntimos pensamentos...”
Nesse sentido, a religião tornou-se, para Feuerbach, uma idolatria, pois o homem adora a sua própria essência: “os predicados divinos são qualidades da essência humana” e “na religião, o homem ao relacionar-se com Deus, relaciona-se com a sua própria essência”.
Feuerbach percebe a necessidade existente no homem da religião – “o sentimento religioso é o mais alto sentimento de conveniência” - uma vez que ela lhe serve como alívio frente às angústias, à dor e ao sofrimento da existência, que a natureza somente provoca e não alivia. O homem é dependente da natureza para existir. A natureza é sentida como necessidade, e é ai que surge a religião, opondo-se entre o querer e o poder, pensamento e o ser. Diante da natureza, o homem sente-se limitado, finito, já a religião teria a possibilidade da onipotência e da infinitude de Deus para oferecer ao homem. Os desejos do homem estariam assim representados enquanto possibilidade na figura de Deus, que é a representação imaginária da realização de todos os desejos humanos, superando os limites que a natureza lhe impõe. Deus domina a natureza, pois para o homem, ele é quem a cria. Assim sendo, Feuerbach desloca a divindade de um Deus externo ao homem para o interior do próprio homem. Ele é o Deus dele mesmo, e diz: "O Ser Absoluto, o Deus do homem é o próprio ser do homem." Deus é então a consciência que o homem tem de sí mesmo, de seu ser. A exemplo disto, a perfeição divina nada mais é do que o desejo do homem de ser perfeito e a consciência que tem de si, enquanto um ser imperfeito. O amor, a crença, o desejo, etc., atribuídos a Deus, que segundo Feuerbach, deveriam voltar-se para o próprio homem e para seu igual. Acredita que o homem deveria acreditar nele mesmo. No entanto, este filósofo aponta um erro na religião, que é a ilusão que ela cria. Ao mesmo tempo que oferece um sentido de vida para o homem e uma forma de ele lidar com suas limitações, a religião acaba por distânciá-lo dele mesmo, exteriorizando a própria divindade.

3. Conclusão
Como vimos, para Feuerbach, o homem é quem cria Deus e não o contrário. Segundo o autor, a filosofia precisa dar conta deste homem como um todo, e não somente da razão que o compõe. Deve abraçar a religião, enquanto fato humano, considerando este homem em comunhão com outros homens, caminho este através do qual ele pode sentir-se livre e infinito. O autor acredita que somente a religião dá conta do homem em sua totalidade. Feuerbach sugere que a religião desempenha um importante papel na vida do homem concreto. Para ele, a consciência que o homem tem de Deus é a consciência que o homem tem de si. Acredita que para se conhecer um homem, basta conhecer seu Deus, já que na sua concepção, a religião, o Deus do homem, nada mais é do que a projeção da intimidade da essência do homem. Assim sendo, para Feuerbach o método da teologia é a antropologia, pois o homem deposita em seu Deus a sua essência.
Em sua radicalidade, torna-se patente em Feuerbach que a religião e mesmo o estado são institutos irracionais a serviço da racionalidade, pois revestem-se de um caráter racional para induzir “vulgo” à submissão.



ARTIGO RETIRADO NA ÍNTEGRA DO SITE:
AUTOR: JOSÉ RICARDO MARTINS.


Ludwig Feuerbach é um dos meus filósofos favoritos, pois em pleno século IX - ao qual o cristianismo ainda exercia grande influência em todos os seguimentos da vida pública e particular - ele ousou expor uma teoria revolucionária que questiona o lado místico e sobrenatural da religião, nos mostrando que Deus nada mais é que uma representação aperfeiçoada de nós seres humanos.


RH.



domingo, 10 de julho de 2011

Divagações


As palavras criam vida em meus pensamentos.
Cuidadosamente eu as meço, peso e verifico se o nível de sentimentos que transmitem é adequado à situação.
Até o momento existe um ideal. 

- uma vontade não realizável que preciso expressar -
Mas o ponto de referência para as idéias que me veem é instável,
sei que do mesmo modo que surgem elas se vão...

Palavras!
Não são nada mais que um dos meios de alcançar o que se quer.

Mas o que quero?
Sabe, para você não existe um "eu" e sim 
o que você se permite perceber do que eu me permito te mostrar.

A realidade é subjetiva, 
o que digo hoje já contradiz o que disse 
ou talvez contradiga o que direi... 
mas o que importa?

Eu sou um lampejo de pensamento,
e o que quero é uma luz de inteligência 
em meio as trevas da ignorância.


AUTORA: RADIGE HANNA.
OBS: Peço a qualquer pessoa que goste de minha mensagem e que queira mostrá-la a alguém o favor de NÃO PLAGIAR.



O limite de um todo


Eu vivo um mundo limitado,
onde os medos são maiores que os sonhos.


A realidade, por mais bizarra que seja, 
quase não é contestada...
e quando o é e as vozes da indignação começam a se erguer, 
logo são abafadas 
e os que ainda resistem tem seus nomes riscados do caderno daqueles que podem ver.


É um lugar estranho,
ao qual a única saída é não perceber que entrou.


Existe uma pseudo-liberdade, que para muitos é o suficiente, 
mas o problema é o que teve de ser abdicado 
para chegar a este ponto 
e o que faremos para chegar ao próximo.


Começo a perceber que para viver é preciso sofrer,
e a diferença entre os indivíduos está entre quem é esperto 
o suficiente para ser feliz apesar da desgraça de todo o resto,
e aqueles que não sabiam que havia uma escolha a ser feita. 



AUTORA: RADIGE HANNA.
OBS: Peço a qualquer pessoa que goste de minha mensagem e que queira mostrá-la a alguém o favor de NÃO PLAGIAR.